Saúde

Posso me defender sozinho em um processo no CRM?

Saiba se você pode se defender sozinho em um processo no CRM, os riscos de uma defesa sem estratégia e a importância da coordenação legal.

Pode, a lei permite. Mas é uma aposta arriscada por dois motivos. Primeiro, o processo tem regras técnicas de prazo, prova e nulidade que o médico não domina no calor do susto. Segundo, e mais grave, o que você escreve na defesa do CRM pode virar prova no processo por erro médico e no criminal, e o contrário também. Defender no conselho sem pensar nas outras esferas é entregar munição pro outro lado.

Sim, você pode se defender sozinho. E quase sempre não deveria

Começo pela parte incômoda.

Nada na lei obriga o médico a ter advogado no processo ético. Você pode oferecer a sua própria defesa prévia, produzir provas e arrolar testemunhas. O problema não é a permissão, é o resultado. O rito tem prazos rígidos, regras de prova e hipóteses de nulidade que decidem casos, e que passam despercebidas por quem não trabalha com isso todo dia.

E tem um agravante emocional. Quem se sente injustiçado tende a escrever uma defesa de desabafo, não de estratégia. Explica demais, admite sem perceber, discute o que não devia. Defender-se sozinho no CRM é como operar a si mesmo: você conhece o corpo, mas ninguém opera bem de bisturi na própria mão.

A armadilha que quase ninguém te conta: as instâncias conversam

Aqui está o ponto que muda o jogo.

O processo do CRM não é uma ilha. O que se apura e se decide ali pode servir de prova no processo cível por erro médico e na esfera criminal, e o que se apura nessas esferas também volta para o conselho. As três conversam. Cada uma é uma sala diferente do mesmo prédio, e as portas ficam abertas. O que você fala numa sala ecoa nas outras.

Traduzindo pro concreto. Uma admissão feita de boa-fé na defesa do CRM, para parecer colaborativo, pode reaparecer na ação de indenização como confissão. Uma versão dada às pressas no conselho, se não bater com a da Justiça, vira contradição usada contra você. Responder o CRM sem olhar o tabuleiro inteiro é jogar uma peça que derruba as suas outras.

Quando a decisão de uma esfera prende as outras

E existe um ponto técnico que vale ouro, quando bem usado.

A responsabilidade nas esferas é, em regra, independente. Mas há uma exceção que o art. 935 do Código Civil fixa: não se pode mais discutir a existência do fato ou quem foi o autor quando isso já ficou decidido na esfera criminal. Ou seja, a absolvição criminal por inexistência do fato ou por negativa de autoria repercute nas outras esferas e pode levar ao arquivamento do processo ético. Já a absolvição por falta de provas não tem esse efeito. Por isso a estratégia criminal e a estratégia no CRM não podem andar separadas. A vitória certa em uma esfera pode ser a chave da outra, e quem defende cada frente isolada perde essa engrenagem.

Vai enfrentar um processo no CRM? Faça isto

  1. Não responda no impulso. O que entra nos autos não sai. Antes de escrever, pense em como aquilo soa nas outras esferas.

  2. Alinhe as três frentes. CRM, cível e criminal precisam contar uma história só. Versões desencontradas viram contradição.

  3. Cuidado com o que admite por escrito. Colaboração mal calibrada em uma esfera pode virar confissão em outra.

  4. Use bem a defesa prévia e as testemunhas. A lei permite arrolar testemunhas e produzir prova. Isso se planeja, não se improvisa.

  5. Busque defesa técnica coordenada. Um só olhar cuidando das três esferas evita que a vitória em uma custe a derrota em outra.

No fim, a pergunta não é “eu consigo me defender sozinho?”. É “eu consigo enxergar, sozinho e sob pressão, como cada palavra minha pesa nas três esferas ao mesmo tempo?”. Se a resposta é não, você já tem a sua resposta.

Texto Escrito pelo especialista em Direito Médico do Nosso Escritório:

Dr. Felipe Zaghi

OAB/MG 187.930 e OAB/SP 404.070

Perguntas Frequentes

Sou obrigado a ter advogado no processo do CRM?
Não. A defesa própria é permitida. Mas o rito é técnico e o que você diz repercute em outras esferas, o que torna a defesa por conta própria arriscada.
O que eu falo no CRM pode ser usado na Justiça?
Pode. O apurado no processo ético pode servir de prova nos processos cível e criminal, e o contrário também.
Se eu for absolvido no crime, o processo do CRM acaba?
Depende do motivo. Absolvição por inexistência do fato ou por negativa de autoria repercute e pode levar ao arquivamento. Absolvição por falta de provas, em regra, não.
Posso arrolar testemunhas na minha defesa?
Depende do motivo. Absolvição por inexistência do fato ou por negativa de autoria repercute e pode levar ao arquivamento. Absolvição por falta de provas, em regra, não.
Vale a pena contratar advogado só pro CRM?
O ideal é uma defesa que enxergue as três esferas juntas, porque o que se decide numa afeta as outras. Tratar o CRM isolado costuma sair mais caro no fim.

Dr. Felipe Zaghi

Dr. Felipe Zaghi, advogado pós-graduado em direito médico, acompanha de perto, há diversos anos, o cotidiano dos profissionais da saúde, trazendo uma compreensão profunda das demandas e dificuldades enfrentadas.
OAB/MG 187.930 e OAB/SP 404.070
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